Quais fundamentos da Ecotecnocracia? (ou) O que é Tecnocracia?

As crises político-econômicas não são fatos recentes, mas uma constante na história. A tecnocracia foi uma das soluções propostas. Tecnocracia quer dizer ao pé da letra “governo dos técnicos”. No mundo todo existiram movimentos tecnocratas. Inclusive no Brasil houve o Partido Tecnocrata liderado por Abílio de Nequete em 1926 sob o lema: “técnicos de todos os países, uni-vos”.

Apesar dos diversos movimentos tecnocratas foram os americanos que mais se destacaram. Uma das bases da Ecotecnocracia é Thorstein Veblen que influenciou os tecnocratas americanos. Ele não defendia uma revolução tecnocrática, mas uma democracia industrial. O Professor Doutor Murillo Cruz da UFRJ nos aponta sobre essa democracia:  “Veblen via o futuro como uma racional e eficiente sociedade industrial; de fato, uma ―democracia industrial, planejada para as necessidades reais e objetivas das pessoas, decorrente da disciplina, da lógica, da objetividade e da racionalidade da tecnologia industrial mecânica moderna.”

Ainda segundo o Doutor Murillo Cruz “a democracia industrial seria a possibilidade da construção de uma ordem sócio econômica ―intermediária‖, entre as alternativas de uma plutocracia capitalista selvagem (como nos EUA), ou uma ditadura do proletariado. Aliás, tal ―ordem intermediária‖ de organização planejada e eficiente do sistema industrial moderno, inclusive sob o comando de uma elite técnica, foi efetivamente implantada e relativamente bem sucedida, até hoje inclusive, na organização da economia japonesa após a segunda guerra mundial; uma organização sócio econômica industrial tipicamente tecnocrática. Parece que esta experiência tecnocrática vebleniana, aplicada no Japão moderno, não conta, para inúmeros críticos de Veblen!”

A experiência tecnocrática bem sucedida a que se refere Murillo Cruz nos leva a repensarmos a confusão sobre o termo “tecnocracia”. Afinal o que é tecnocracia? A tecnocracia é um modelo de governança funcional defendido por algumas instituições pelo mundo. Dentre diversas instituições destacamos três bem diferentes entre si: “Europe Organisation for Sustainability (Network of EuropeanTechnocrats)”, “Technocratic Party of Canada” e “Technocracy Incorporated”. A primeira é um experimento na Suécia, a segundo é uma organização partidária e a terceira é um movimento social apartidário.

Uma das instituições que formaram a tecnocracia como movimento social foi a Aliança Técnica (Technical Alliance) da qual fez parte Albert Einstein. A Technical Alliance foi a primeira instituição global a reunir a inter-relação da inter-operabilidade física e financeira.  Technical Alliance uniu vertentes da Física e seu entendimento de energia em um escopo nunca sugerido antes: a interação humana  e da governança através do prisma científico das hard sciences.

Se tecnocracia pode ser entendida aqui como governança dirigida pela “classe de engenheiros” de Veblen: Então que classe seria essa? O Doutor Murillo Cruz nota: “Veblen oferecia três explicações do poder potencial revolucionário dos técnicos e dos engenheiros na ordem industrial tecnológica moderna: (i) os técnicos e os engenheiros detinham a posição estratégica com relação aos meios produtivos. Eles incapacitariam a produção industrial geral de forma mais rápida e eficiente do que qualquer outro grupo; (ii) seriam mais fáceis de organizarem-se em um quadro revolucionário, pois o seu número era proporcionalmente diminuto; eram mais homogêneos e as suas identidades profissionais eram bem definidas; e (iii) eram os únicos grupos capazes de organizar e colocar em funcionamento o sistema industrial após uma revolução. […] Em nenhum momento, desde 1919 inclusive, e muito menos em 1921, Veblen teve qualquer dúvida acerca da docilidade e da inofensividade dos técnicos ou dos engenheiros norte americanos em promover a tomada do poder político dos homens de negócios e instaurar uma tecnocracia na América.

O isso significa nos dias de hoje? Acreditamos que é preciso organizar os técnicos e cientistas e colocar limites nos politiqueiros, nos financeiristas e nos chantagistas.

Thorstein Veblen  circunscreve seu pensamento criticando as formas abusivas do capitalismo. O professor Murillo Cruz da UFRJ faz a seguinte nota: “Veblen era um crítico conspícuo e devastador das práticas predatórias das empresas de negócios e dos captains of finance, que tomaram o sistema industrial e a produção dos itens econômicos de serventia para os seus propósitos pecuniários. Veblen acreditava, ademais, que a própria tecnociência moderna – mesmo em um ambiente institucional dominantemente predatório e competitivo – estava criando valores e hábitos contrários ao desperdício (conspícuo), desperdício este que governava as classes ociosas e estendia-se para toda a sociedade. Assim, a disciplina do processo mecânico moderno, e da tecnociência moderna, afetava e influenciava os hábitos de todos que estivessem envolvidos com a sua lógica e com as suas operações, mas influenciava, particularmente, os engenheiros de produção. Neste sentido, os engenheiros, preocupados com a melhoria material da comunidade como um todo, fruto do labor diário de suas atividades, e possuidores de um instinct of workmanship relativamente liberto de outras propensões mais predatórias, poderiam, ao menos em tese, oferecer alguma esperança para uma ordem social mais justa e harmônica. Como inúmeros outros críticos progressistas, Veblen via o futuro como uma racional e eficiente sociedade industrial; de fato, uma ―democracia industrial, planejada para as necessidades reais e objetivas das pessoas, decorrente da disciplina, da lógica, da objetividade e da racionalidade da tecnologia industrial mecânica moderna. Esta imagem vebleniana certamente é uma síntese de, no mínimo, duas grandes ideias que Veblen carregou durante toda a sua vida adulta e está presente em sua teoria: (i) por um lado, é uma espécie de atualização do clássico norte americano Looking Backward, de Edward Bellamy, livro este que influenciou fortemente Veblen; e (ii) é igualmente uma atualização e expressão, em termos modernos, dos sentimentos e das propensões mais claramente cooperativas, construtivas e ginocêntricas do período da ―selvageria pacífica que antecede o período ―predatório da cultura, de sua teoria, conforme vimos no capítulo 2. Pode-se afirmar também que esta imagem vebleniana carrega igualmente sentimentos e realidades de toda a sua cultura nórdica e de toda a sua infância e adolescência, vivida em um ambiente caracteristicamente cooperativo, construtivo, igualitário, solidário, inteligente, de trabalho diligente e socialmente saudável, dentro das possibilidades que a época e o ambiente permitiam, obviamente. ”

Essas ideias significam na prática uma postura de combate a poluição do ambiente venenoso promovida pelos políticos e suas empresas de comunicação no Brasil que tem deixado marcas nas ambiências reais e virtuais ameaçando as ligações entre as pessoas. Até mesmo é preciso pensar o quanto os brasileiros são influenciáveis, pois isso ameaça a nossa estabilidade e a paz interna.

O contraditório nesse contexto é que essa “ditadura” da mídia é considera como “tecnocracia” por Pierre Bourdieu. Para ele “tecnocracia” é, em suma, uma espécie de ditadura das tecnologias da informação e comunicação para apoiar o neoliberalismo. Em que pese a existência do fenômeno, não podemos negá-lo, mas no entanto, o termo é mais antigo e Bourdieu não fez uma contextualização. Muitos são os que consideram tecnocracia como tal “ditadura” tecnológica, porque só conhecem as citações a Bourdieu .

A primeira manifestação do termo tecnocracia é atribuída ao sociólogo francês Claude-Henri de Rouvroy, o conde de Saint-Simon(1760-1825).  Ele propôs, em “Réorganisation de la Société Européenne” de 1814, uma total substituição da política pela Ciência da Produção. Saint-Simon foi economista e constatou: “A Economia não é uma ciência; é meramente uma política disfarçada.”

A tecnocracia ainda é pouco conhecida no Brasil apesar de sua importância e influência. Há doutores especialistas como o Doutor Murillo Cruz da UFRJ que em certa medida entendem do assunto.

Perguntamo-nos: o quanto esses doutores tem sido escutados no sentido de ajudar a superação da crise de 2015?

Nesse sentido é preciso olhar para a história econômica. Nós já passamos por crises enormes: basta lembrar de 1929. Os americanos da Technocracy Incorporated acreditavam que tecnocracia era a solução para todas as crises e traçaram um Plano da Gestão baseado na Contabilidade de Energia incluindo gráficos sobre o desenvolvimento industrial dos Estados Unidos nos últimos cem anos. Mas invés de medidas monetárias, fizeram isso com coisas reais: homens-hora por unidade de produção, o gasto de energia por produto, o emprego e as horas de trabalho, volume e ritmo de crescimento da produção, etc. A perspectiva da Tecnocracia parte da concepção materialista da história: o fator fundamental em qualquer sociedade é a sua capacidade de fazer uso dos recursos energéticos disponíveis.

O que foi concluído? Quando a taxa de conversão de energia permanecia constante, não havia nenhuma mudança social. Assim, a domesticação de plantas de cultivo e domesticação de animais marcados foram importantes mudanças sociais iniciais. Mas depois disso pouca mudança ocorreu a partir “do início da história humana até o meio do século XVIII”, pois o próprio corpo do ser humano era o único mecanismo de conversão de energia disponível. O homem estava escravo de si e a aplicação da Ciência – Física Mecânica – na cadeia produtiva o libertou. Nestes conceitos, tanto a taxa quanto a extensão da magnitude da mudança social podem ser medidas em termos quantitativos físicas. Por exemplo, as sociedades agrárias são limitadas a 2.000 kg-calorias de não-humanos o consumo de energia per capita por dia. Após a introdução da tecnologia de máquinas nos Estados Unidos, a partir de meados do século XVIII, isto se elevaria para 150.000 kg-calorias per capita por dia. Se hoje todas as medidas econômicas são feitas em termos de um padrão pecuniária variável: o preço. Isto é um problema grave perante uma crise econômica, já que os preços, a riqueza patrimonial e a dívida não são medidas físicas, eles flutuam sem relacionar-se com os itens físicos que representam. Exemplo – quanto alimento é jogado fora para aumentar o preço de um produto? – isso é irracional perante a fome humana!

Para os tecnocratas americanos, o problema pareceu ainda maior na indústria porque as regras de produção para o lucro e retorno sobre o investimento de capital do Sistema de Preços leva sempre a uma crise! Assim, para reduzir os custos internos, a mecanização deve ser constantemente aumentada, isso gera o Desemprego e a Crise de Superprodução. Para saldar a capitalização, a indústria deve expandir continuamente a uma taxa de juros compostos – o que é impossível, uma impossibilidade física! Mesmo que de alguma forma, as pessoas possam comprar injetando dinheiro na economia – isto seria uma solução temporária sempre. O problema básico é que todo o conjunto de conceitos econômicos está simplesmente inadequado para lidar com uma sociedade de alta energia e tecnologia!

A partir de soluções baseadas na Econofísica, Biofísica, Termoeconomia e outras é que as pessoas movidas em torno de um projeto ecotecnocrático poderiam projetar uma governança funcional capaz de eliminar ou minimizar a escassez e a pobreza na sociedade.

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